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14/09/2018 às 13h44 > atualizado em 20/09/2018 às 09h30

Rosy de Macedo, a primeira deputada no Paraná

Por Vanderlei Rebelo

Pioneira das causas feministas e da participação da mulher na vida pública, Rosy de Macedo Pinheiro Lima (1914-2002) foi a primeira deputada a exercer mandato na Assembleia Legislativa do Paraná. Feito que ganha ainda maior relevo quando contextualizado em seu momento histórico, em que a mulher tinha um papel periférico na política e na vida nacional.

Rosy de Macedo elegeu-se deputada pela UDN (União Democrática Nacional) em 1947, nas primeiras eleições para a Assembleia Legislativa desde 1934 (em 1937 o Congresso Nacional e as assembleias estaduais haviam sido fechados por Getúlio Vargas, após a implantação do Estado Novo).

Nascida em Paris, filha dos paranaenses José Maria Pinheiro Lima e Stella de Macedo, Rosy de Macedo fez seus primeiros estudos em Viena (Áustria), no Tirol (Itália) e na capital francesa. Sua família voltou a Curitiba e a matriculou no Ginásio Paranaense, onde ela terminou o ensino médio. Em 1933, com apenas 19 anos, a precoce Rosy concluiu o curso de Direito na Faculdade de Direito do Paraná. 

Nesse mesmo ano, em dezembro, junto com a advogada Ilnah Secundino de Oliveira (primeira promotora criminal e juíza do Trabalho no Paraná) e sua amiga Deloé Scalco, ela fundou o Centro Paranaense Feminino de Cultura (CPFC), do qual foi a primeira presidente.

Fundado por três jovens mulheres de espírito independente que desafiavam o modorrento provincianismo da Curitiba dos anos 1930, o CPFC foi inovador na realização de projetos culturais, saraus literários e concertos, publicação de livros e ação filantrópica, com a criação de um centro de cuidados à criança nos anos 1940. O interventor Manoel Ribas e, depois, o governador Moysés Lupion, assim como deputados, prefeitos, jornalistas e intelectuais, foram ­­ frequentadores assíduos desses saraus.

Além de alargar os horizontes intelectuais de suas associadas, o CPFC também oferecia cursos (inglês, datilografia, corte e costura) visando a inserção de mulheres no mercado de trabalho, num momento em que a emergência do setor de comércio e serviços abria novas oportunidades aos trabalhadores, com a criação de novas profissões urbanas. Estudos acadêmicos discutem o papel do CPFC e da própria Rosy como precursores do movimento feminista dos anos 1960 e seus esforços na inclusão da mulher no espaço público.

Em 1937, Rosy de Macedo defendeu a tese A mãe e o Direito Civil na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, e se tornou a primeira mulher no país a obter o doutorado em Direito. Em outubro de 1943, a Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa concedeu-lhe bolsa de estudos de um ano na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, onde ela teve aprovada a sua tese As Bases do Direito Privado Internacional.

Perto de chegar aos 30 anos, bonita, inteligente e cosmopolita, Rosy afrontava as convenções vigentes de que o destino da mulher bem sucedida estava necessariamente ligado ao casamento e à maternidade. 

Ao retornar a Curitiba, em 1944, Rosy lançou-se numa atividade frenética, dividindo-se entre o Centro Feminino de Cultura, os estudos literários e o trabalho como advogada. Com a deposição da ditadura varguista, em outubro de 1945, e o processo de redemocratização do país, ela filiou-se à UDN e dois anos depois foi eleita deputada estadual, centrando sua campanha em Curitiba.

Foi uma façanha extraordinária, levando-se em conta que o voto feminino fora aprovado no País havia apenas 15 anos, em 1932 (por incrível que possa parecer, o Brasil se antecipou a vários países na adoção do sufrágio feminino: na Itália, as mulheres só conquistaram o direito ao voto em 1946; na Argentina e na Venezuela, em 1947; no Chile, em 1949; no México, em 1953; e – pasme – na moderna Suíça as mulheres votaram pela primeira vez somente em 1971).

A atuação de Rosy Macedo na Assembleia Legislativa teve maior ênfase na educação (ela integrou a Comissão de Instrução Pública) e na inclusão da mulher na ação pública. Por razões que não estão bem claras, ela não assinou a Constituição Estadual aprovada pela Assembleia ainda em 1947.

Nas eleições de governador, em 1950, Rosy apoiou a candidatura vitoriosa de Bento Munhoz da Rocha, lançado pelo Partido Republicano e pela UDN. Concluído o mandato de deputada, Rosy dedicou-se ao seu trabalho de advogada, escreveu artigos em jornais e nos anos seguintes publicou duas obras, uma biografia, A Vida de Júlia da Costa, poeta e escritora paranaense que ela admirava profundamente, e um livro de poesias, Poeira do Sol.

Rosy de Macedo jamais se casou, nem teve filhos. Dedicou-se a vida inteira exclusivamente à literatura, à sua profissão e à emancipação das mulheres. Sua eleição, tudo indica, foi um ponto fora da curva: depois dela, só nos anos 1980 a Assembleia Legislativa do Paraná voltou a ter uma deputada. Mas, desde então, o número de mulheres no Plenário vem se ampliando gradualmente.

 

 



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